domingo, 4 de março de 2012

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Pernas cruzadas,  sentados a mesa; deitados na cama, enrolados ou não; em pé frente ao banco, com o talão de cheques à mão; sozinho diante do espelho, ainda de pijamas. Não sei, imagine a cena como bem entender. Só peço uma coisa: não imagine as respostas. Algumas foram parcialmente ou ironicamente respondidas, outras não têm, não precisam ou não devem ter respostas universais ou até mesmo pessoais:

- Eu preciso de uma ajuda: para que lado fica a vida?
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- Essa é a dúvida que me angustia: esquerda ou direita?
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- Eu já nem sei o que eu ia fazer, talvez pegar algo na geladeira ou quem sabe procurar nos almanaques guardados na estante onde exatamente fica o início da vida. Onde será que termina essa discussão filosófica?
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- É, talvez uma bebida ajude a esquecer o que o almanaque ajudaria a lembrar: o que dizem ser início é apenas o que se pode ver, e o que se vê nem sempre ajuda a encontrar. Seria bom procurar?
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- Por menor por pormenor já procurei, me disseram que tinha um mapa em cima da mesa, será que o vento levou pela janela?
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- Cuidado, é perigoso se inclinar tanto assim para olhar tão em baixo, vai ver foi só isso que ficou mesmo: a dúvida. E o que mais se precisa além dela?
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Não sei, talvez seja necessário algumas respostas direcionando os passos. Como saber para que lado virar-se ou ações a serem realizadas?
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- Ora, deixe de ser bobo! Não se preocupe, como cego tateando o invisível você encontra, já olhou debaixo da cama?
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- Não, não importa mais. Talvez seguir esses caminhos traçados por canetas não seja a melhor solução. Elas por acaso têm coração?
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Sabe-se lá se têm coração! Não sei nem mesmo se temos coração. Temos coração? O coração é realmente norteador de caminhos como dizem?
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- Em busca de auxílios externos eu me perdi da pergunta inicial. Devo ficar com a dúvida apenas ou me apegar também a crenças?
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- Vida, vida é o que se quer encontrar, não respostas existencialistas! Para que servem essas respostas?
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- Para gerar mais dúvidas? Então, duvidas sem respostas e uma procura, é só isso que tenho?



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- Só uma pergunta: por que encontrá-la?
- Porque ela guardou em ou para si a razão de um sorriso no rosto...


Paula Carine

1 comentários:

  1. A primeira imagem que se insinuou ao olho de minha mente foi a de um casal, depois pensei em velhos amigos de longa data, depois vi alguém acompanhado apenas de sua solidão, ou vagando perdido em uma metrópole estranha, e então pensei numa multidão de rostos e circunstâncias... Todas as cenas se encaixariam bem, de fato, para um ou mais dos momentos pontuados no texto, não exatamente reflexivo, apenas pleno de inquietações insanáveis, expressadas com medidas variadas de lirismo, humor e angústias.

    Achei curioso o pedido do interlocutor inicial no texto: "por favor não imagine as respostas." Mas como é possível não imaginá-las, pensei comigo... Então, logo a primeira pergunta - "eu preciso de uma ajuda: para que lado fica vida?" - me desconsertou, que rasteira! Como é que se pode imaginar algo assim absurdo?

    Se um passante na rua me abordasse com a expressão de quem procura uma rua ou praça e fizesse essa pergunta, eu cairia na gargalhada. Não exatamente porque é engraçado, mas porque não tem a menor graça. Na verdade, é tão absurdo que é impossível não ficar abalado e não ter uma reação como chorar de dar risada. Ninguém sabe para que lado fica a vida, oras, ela está por todos os lados, ou para lado algum, ou não tem lados, ou tem todos eles... É o tipo de pergunta que Lewis Carol colocaria na boca de uma Lagarta com expressão séria, fumando ópio em cima do cogumelo, para a pequena Alice, às voltas com o País das Maravilhas mais estranhas já imaginadas... O mais curioso é que, talvez, lá, alguém respondesse com naturalidade: "Fica à Esquerda, depois do chafariz". Mas isso não vem ao caso.

    O caso é que gostei muito do texto. Não sei exatamente se ele gostou de mim, já que cada vez que o leio parece-me que ele se refaz em outro texto. Como num labirinto de paredes semoventes, estou às voltas com suas questões absurdas, todas tão naturais, até mesmo inevitáveis. Diante de tais questionamentos como não reconhecer nossa intrínseca limitação? Não há respostas, senão o silêncio, que não é resposta, é mais indagação. Fiquei com a sensação de que até dúvidas nós não temos, elas é que nos têm, e nós nada temos, senão esses vazios que anseiam por ser preenchidos, e nunca o serão suficientemente, afinal.

    A última linha do texto, que traz a única resposta que senti não ter (muita) ironia, embora seja parcial, me satisfez. Também de modo parcial, julgo que é verdade.

    Parabéns pelo inteligente e divertido texto, cara escritora, Paula Carine. Gostei até das reticências e das sinalizações de intervalos e interrupções alinhavando o escrito. Dão o ar fragmentário e vago que um texto desses precisa para alcançar seu objetivo. E, com certeza, esse foi alcançado. Pelo menos para mim jogou às faces que de objetivo nada temos e nem somos. E o resto, são maravilhas e estranhezas sem fim.

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