quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A peça do baú de brinquedos velhos (e quebrados)

Os materiais e métodos mudam, mas o criminoso na nossa sociedade continua a ser ator principal em um espetáculo público. Fogueira, procissão, decapitação? Não, juri e reclusão (ou detenção), mas a semelhança se encontra no fato dos noticiários (sem conhecimento jurídico quase nenhum) transformarem crimes, julgamentos e condenações em espetáculos públicos. Que justiça é essa que se maqueia e fantasia para aparecer nos jornais? É caso "isso", caso "aquilo". A mídia joga conosco, com nossos sentimentos, esquecendo-se que a vítima, mesmo em lato sendo a sociedade, em estrito é ou era uma pessoa e não um mero objeto com valor econômico, continuo com Kant diferenciando pessoas de coisas! Valores deturpados, isso que se tem. Em verdade, isso que continua-se a ter. 
E as prisões, esses canteiros de maldição, não são nada mais que baús de brinquedos velhos. Não vejo muita diferença de um presídio brasileiro e o baú de brinquedos velhos de uma criança sapeca. Aquela criança que não cuida dos seus brinquedos, que os larga em qualquer lugar, brinca sem cuidado, destruindo as vezes irreversivelmente o seu brinquedo. Sim, essa criança é a nossa sociedade. E o brinquedo? Claramente e sem pudor algum posso dizer que somos nós, os esquecidos pelas politicas publicas, esquecidos pelo governo, pelos políticos, pelos mais favorecidos. E quando este brinquedo está quebrado e aparentemente inutilizável por essa criança, joga-se no baú de brinquedos velhos. Um baú escuro, frio, e que fede a mofo. Estar ali não fará com que este brinquedo 'se recupere', não, ele apenas ficará cada vez mais inutilizável. Adquirirá um fedor insuportável de mofo, o que o deixará cada vez mais suscetível a novas deteriorações.

Paula Carine

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Tem horas que a sociedade está tão intragável que não dá para fazer poesia. Tem momentos que a beleza se esconde e sobressai o lixo, o que há de podre. Minha poesia pode mostrar o triste, e até o melancólico, mas ela se recusa a pintar a segregação e injustiça, mesmo que em forma de crítica. Por favor, não digam que hoje eu fiz poesia, porque na verdade eu apenas contextualizei a hipocrisia!

1 comentários:

  1. Não, não fizeste poesia.

    Porque a nossa realidade não é poética.
    E o que falaste, o que desabafaste, o que regurgitaste, isso que entalado estava na garganta, não só a sua, infelizmente, é a nossa realidade.

    Gostei da comparação em parte entre o ser da sociedade e o ser de uma criança. Nossa sociedade, com efeito, muitas vezes, não passa de uma criança, na birra e na falta de consciência crítica e responsabilidade, mas muitas vezes é velhaca. Na malícia, na violência, no desamor...

    O mais triste, o mais trágico, é que mesmo sendo pessoas, e apesar de toda a eloquência empregada desde Kant até nosos dias para afirmar que, como tal, temos dignidade e não apenas valor, que somos fins e nós mesmos e não apenas meios para algo mais como todas as outras coisas, ainda assim, muitas vezes, realmente não passamos de brinquedos...

    E como é fácil quebrar brinquedos...

    Como é fácil ignorar as suas partes desconjuntadas e jogá-los, descartáveis, ao lixo...

    Sim, nós estamos em uma brincadeira mortal, de vida e morte, e, embora muitos jamais vivam de verdade, sempre morremos, fácil e subitamente morremos, e, quando a vida se torna assim banal, brinquedo do acaso e do absurdo, já não tem mais graça...

    Tudo não passa, então, de uma piada infeliz, sórdida, desgraçada, letal...

    Quiséramos nós que reencontrássemos com a criança que deveríamos ser e, quem sabe, que um dia fomos, e que, talvez, um dia possamos voltar a ser, senão na idade ou na consciência, ao menos no lirismo, no espírito lúdico, na abertura e na renovação...

    Quisera que estivéssemos sempre revirando o nosso baú, tirando dele coisas novas e velhas, nada perdendo, tudo aproveitando e valorizando...

    Ah, isso sim seria uma realidade poética que mereceria em todos os versos...

    Mas, se o que temos é o injusto oposto, nada há de mais certo do que denunciar: o fato matou o poema. Mas não não vamos prendê-lo por isso. Pelo contrário, vamos nos libertar desse fato, que assim é que renasce a poesia.

    Se tua expressão, com frequência, não for poética, Paula Carine, não te preocupes. Esse é o normal. A poesia nunca é banal. E, de qualquer modo, tua expressão é, de algum modo, sempre relevante, porque reflete sobre o que importa, ainda que doa, na nossa realidade. Por isso, parabéns.

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